domingo, 6 de novembro de 2011

Oi.

Fiquei ensaiando no carro, na ida, o que iria te falar. Durou uns 30 minutos nossa conversa-ensaio, tempo do trajeto que faço da Vila Mariana até a Pompéia sem trânsito no domingo à noite. Eu tinha um compromisso solitário por lá.
Na volta, pensei em te ligar. Mas achei melhor ir direto, sem avisar. Porque eu acho mais bonito aparecer do nada, um romantismo. Que besta que eu sou! Talvez já esteja dito. Já está?
Ontem falei para um amigo: queria que fosse diferente. Ele me respondeu: por que você não faz diferente então?
Eu tentei hoje, mas não consegui.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Cavalo Selvagem

Eu tenho um cavalo preto que eu amo muito. É um cavalo selvagem.
Ele é meu mas é do mundo, não consegue viver numa cerca; e eu nem quero que ele viva assim, pois preso ele não viveria, adoeceria.
Ele é lindo vivo, livre, dono de si mesmo. Eu sou completamente apaixonada por ele.
Tenho medo de perdê-lo porque não sei andar a cavalo direito, muito menos o do tipo selvagem. Tenho medo de cair de um galope, de repente. Mas eu ando do meu jeito esquerdo.
Ele não tem rédeas, cabrestos ou bridões; eu sento direto no pêlo e o seguro com abraços, às vezes puxando os seus cabelos.
Tenho muita coragem de montá-lo, uma coragem que se renova diariamente. Comigo ele é doce, mas, de vez em quando, se irrita. Noutras dispara, salta, relaxa... Quando ele abaixa a cabeça do nada eu também sinto medo de escorregar pra frente, às vezes ele me pega de surpresa.
Meu cavalo selvagem é realmente muito muito lindo, não me canso de olhá-lo. Ele é tudo o que eu sempre quis e não sabia. Eu quero cuidar dele, quero conhecê-lo tanto a ponto de montá-lo de olhos fechados, apenas sentindo a temperatura e o movimento do ar.
Por alguns segundos eu já consigo fazer isso, mas logo abro os olhos, temerosa, então vejo que está tudo bem.
Ele me ama muito, eu sei disso. Também sei que ele me quer sempre por perto, ele me escolheu e eu o escolhi, foi recíproco.
Mas ele é do tipo imprevisível, como todo animal selvagem.
Pensar que talvez eu seja muito parecida com ele é o que mais me impressiona.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O Enterrado Vivo

É sempre no passado aquele orgasmo,
é sempre no presente aquele duplo,
é sempre no futuro aquele pânico.

É sempre no meu peito aquela garra.
É sempre no meu tédio aquele aceno.
É sempre no meu sono aquela guerra.

É sempre no meu trato o amplo distrato.
Sempre na minha firma a antiga fúria.
Sempre no mesmo engano outro retrato.

É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.
É sempre no meu não aquele trauma.

Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Entendi:

"Dessa vez era um amor mais realista e não romântico: era o amor de quem já sofreu por amor."

Obrigada, Clarice, por sempre me explicar a minha própria vida.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Simplesmente

Acho que já deu tempo suficiente. Na verdade, esse tempo suficiente é só meu, provavelmente não se aplica a mais ninguém.
De qualquer modo, estou de volta. Não sei por quanto tempo, mas, por ora, não pretendo sumir tão cedo. Pretendo, aos poucos, voltar.
Nesse tempo longe eu aprendi a não precisar tanto. Descobri que estar junto não exige reafirmação e que eu posso estar ali sem estar fisicamente presente, e posso senti-lo da mesma maneira.
Aprendi que o amor excessivo pode submergir uma pessoa, sim, como disse a Clarice. Eu passei por isso.
Por sorte ou por destino, hoje amo simplesmente, sem uma grande razão, sem certezas absolutas.
Amo porque amo, não sei explicar o porquê, não preciso. E amo mais o homem que o amor, pela primeira vez correspondido. E amo um menino também, que divide o mesmo corpo desse homem - isso é bom porque aqui também mora uma menina e uma mulher.
Não penso tanto em futuro como pensava antes e isso faz da minha vida muito mais tranquila. Não estou construindo castelos, dessa vez; por isso tudo me parece mais palpável hoje em dia.
Não preciso de juras de amor eterno, mas eu ainda gosto de demonstrações públicas de afeto, não nego - toda mulher que gosta, gosta.
Agora não sou mais cobrada e nem cobro demais. Me sinto mais livre, mais leve, sem a necessidade de me soltar ou de escapar.
Há anos atrás eu era feliz cegamente, depois eu passei a ser feliz excessivamente e hoje sou feliz simplesmente. Mas não é uma felicidade fácil, é uma felicidade conquistada, aprendida e equilibrada. Para mantê-la eu vou fazer diferente, vou me responsabilizar por sua manutenção constante, porém não sozinha.
Já errei deixando as coisas acabarem aos poucos, até que não havia mais jeito de voltar atrás: era inevitável. Como eu já disse outra vez, não gosto de fins demorados, prefiro os abruptos. Mas não quero pensar nisso agora.

Estado de Graça

"Sai-se do estado de graça com o rosto liso, os olhos abertos e pensativos e, embora não se tenha sorrido, é como se o corpo todo viesse de um sorriso suave. E sai-se melhor criatura do que se entrou. Experimentou-se alguma coisa que parece redimir a condição humana, embora ao mesmo tempo fiquem acentuados os estreitos limites dessa condição. E exatamente porque depois da graça a condição humana se revela na sua pobreza implorante, aprende-se a amar mais, a perdoar mais, a esperar mais. Passa-se a ter uma espécie de confiança no sofrimento e em seus caminhos tantas vezes intoleráveis."

A descoberta do mundo - C.L.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Arte-vida 2

Cada dia tenho mais certeza do que quero.
Cada dia tenho a reconfirmação de que arte e vida andam juntas.

O caminho da mulher para a atriz é vivencial, não tem intervalos.
Não posso me deixar adormecer novamente; preciso reencontrar meu equilíbrio.

Não quero representar o vento, eu quero SER o vento.

Quando uma pessoa É ninguém resiste.
É maravilhoso, é puro, é limpo.
É belamente cênico.